Entre abril de 2024 a março de 2025, como parte da terceira edição da Feminist Internet Research Network (FIRN), o Instituto Minas Programam realizou uma pesquisa sobre os impactos da violência de gênero facilitada pela tecnologia (VGFT) nas experiências de mulheres negras. Nossos resultados mostram que, apesar das tecnologias digitais convencionais serem frequentemente carregadas de racismo, machismo e misogynoir, as mulheres negras têm conquistado seus próprios espaços online, construindo estratégias de resistência, conexão e possibilidade: usando tecnologias digitais para construir relacionamentos e trocar conhecimentos, encontrando caminhos para a expressão coletiva e individual, se engajando com o discurso e o ativismo feminista negro, e influenciando agendas culturais e políticas em todo o país.

O relatório de pesquisa completo foi lançado em inglês pela FIRN no começo do mês de março e hoje o Instituto Minas Programam publica a versão brasileira da publicação.

Violência retratada por escritoras, políticas, profissionais da área da tecnologia, estudantes, líderes comunitárias, artistas e jornalistas.

O relatório oferece uma análise detalhada de como os espaços online estão impregnados de racismo, machismo e misoginia no Brasil e como isso afeta as experiências das mulheres negras na internet. Compartilhamos histórias de escritoras, ativistas e políticas cujos escritos públicos, organização e engajamento político online foram alvo de tentativas de deslegitimar e intimidar por meio da VGFT, bem como de mulheres negras que trabalham na área de ciência e tecnologia, que enfrentam ataques ao assumirem funções profissionais e/ou entrarem em espaços digitais.

As consequências da VGFT e da misogynoir incluíram impactos na liberdade de expressão das mulheres negras, levando ao silenciamento, à autocensura e a limitações no comportamento online; geraram consequências psicológicas e emocionais duradouras; e, às vezes, tornaram-se obstáculos para as carreiras profissionais das mulheres e seu engajamento com o ativismo.

Nossas conclusões reiteram a importância de analisar a VGFT contra mulheres negras como um fenômeno que deve ser entendido como continuidade de expressões violentas mais amplas de racismo, machismo e capacitismo prevalentes na sociedade brasileira. Constatamos que a VGFT contra mulheres negras muitas vezes busca reproduzir e/ou amplificar narrativas de que as mulheres negras são contribuidoras inadequadas para o debate público sobre política, cultura, sociedade, relações raciais, questões sociais no Brasil e/ou não são aptas para ocupar certos cargos profissionais em áreas predominantemente ocupadas por pessoas brancas (e muitas vezes homens).

Este relatório busca demonstrar algo que mulheres negras têm denunciado há anos: a gravidade e o grau de disseminação desta forma de violência, seja contra figuras de destaque na esfera pública, seja contra mulheres anônimas.

  • No primeiro capítulo, exploramos de que maneira as mulheres negras têm “cavado” seus/nossos próprios espaços online e no interior das tecnologias digitais. Mostramos como — apesar do racismo, machismo e misogynoir estarem enraizados nas tecnologias digitais convencionais — mulheres negras estão encontrando brechas e cavando seus próprios espaços para construir relacionamentos e trocar conhecimento, encontrando caminhos para a expressão coletiva e individual, se engajando com o discurso e o ativismo feminista negro, e influenciando pautas culturais e políticas em todo o país.
  • O segundo capítulo traz uma visão mais aprofundada sobre como o racismo, machismo e misogynoir estão enraizados em espaços online no país e de que forma isso impacta as experiências online de mulheres negras. Compartilhamos histórias de escritoras, ativistas e políticas que se tornaram alvo de tentativas de deslegitimação e intimidação por meio da VGFT, em razão de seus escritos públicos, de sua atuação organizativa e de seu engajamento político online. Incluímos ainda relatos de mulheres negras da área de ciência e tecnologia que enfrentam ataques ao assumirem funções profissionais e ao ingressarem em espaços digitais. Também examinamos as consequências dessas violências, mostrando de que forma impactaram a liberdade de expressão de mulheres negras, levando ao silenciamento, autocensura e limitações de comportamento online; causando repercussões psicológicas e emocionais persistentes; e, às vezes, se tornando obstáculos para suas vidas profissionais e ativismo.
  • No terceiro e último capítulo, nos voltamos para as histórias de resistência, conexão e possibilidade de mulheres negras. Apresentamos destaques das conversas com participantes da pesquisa quanto à recusa em serem silenciadas pela VGFT e a misogynoir; como seguiram construindo seus próprios espaços, envolveram-se com cuidados digitais; e cultivaram o senso de comunidade e conexão com outras mulheres negras.