Texto de Ester Borges.
Em junho de 2025, o Minas Programam completou 10 anos como projeto que visa quebrar estereótipos no campo da tecnologia, trazendo mais mulheres e meninas negras ou periféricas para conversas que nossas fundadoras, Ari, Bá e Fe, já estavam acompanhando em suas trajetórias pessoais.
Ao longo desses 10 anos, muitas coisas mudaram tanto no ecossistema de organizações trabalhando nessa temática, quanto em projetos que encabeçamos. Crescemos, aprendemos, erramos, ajustamos rotas e seguimos insistindo em um futuro em que tecnologia e a ciência sejam sinônimos de possibilidades para meninas e mulheres negras.
Para marcar esse ciclo e celebrar tudo o que construímos juntas, realizamos uma festa em 29 de novembro, lá na Ocupação 9 de Julho.
Quando a ideia surgiu por aqui, foi sinônimo de euforia, cada uma de nossas integrantes pensava em convidados, atrações e histórias que poderiam ser contadas sobre os últimos 10 anos. Pensávamos em celebrar o que construímos encerrando esse ciclo de um jeito que fosse “a nossa cara”. E foi o que aconteceu.
Durante pelo menos dois meses, nossa equipe e a equipe da Transborda – Impacto Social, uma organização de produção de eventos e consultorias em projetos sociais encabeçada por pessoas trans, imaginaram cada detalhe de como fazer com que cada aluna, professora e monitora fosse reconhecida por esses anos de dedicação. Fazer uma festa com o Samba da Dessa e DJ Amala na ocupação 9 de Julho surgiu daí. Aproveitar um espaço cultural de São Paulo onde se celebra a luta por justiça social do jeito que a gente gosta, com música, alegria e muita comida boa junto com todo mundo que participou dessa história com a gente.
Começamos a comemoração com o que seria a formatura do curso de aprofundamento em lógica de programação para ex-alunas que já haviam concluído nosso curso de introdução à programação. Este curso foi pensado por nossa equipe pedagógica como uma forma de oferecer espaço para nossas ex-alunas aprofundarem seus conhecimentos em lógica da programação e desenvolverem ainda mais suas habilidades. Ao final do semestre, 23 meninas e mulheres negras concluíram o curso. Porém, o espaço acabou virando mais do que isso: foi um momento em que pudemos compartilhar trajetórias, contar sobre desafios, aprendizados e conquistas, ler poesia e incentivar umas às outras. Foi um espaço de escuta, reconhecimento e fortalecimento coletivo do jeito que o Minas Programam acredita e constrói.
Cerca de 70 pessoas, que passaram por diferentes etapas do Minas Programam, estiveram presentes. Ver tantas trajetórias que foram impactadas pelo nosso trabalho em um mesmo espaço nos emocionou. Eram histórias que se reconheciam, afetos que se reencontravam e novas conexões sendo criadas ali.
Mais do que uma comemoração, essa festa foi um marco de encerramento. Depois de 10 anos, o Minas Programam fecha um ciclo com orgulho do que construiu, com gratidão por todas que fizeram parte dessa história e com o cuidado de registrar publicamente esse momento de transição. Citar nominalmente todos e todas as presentes seria impossível e, até, injusto. Mas deixamos aqui um agradecimento especial a Marylly, que durante tanto tempo foi uma apoiadora do Minas, a Amanda que foi uma das nossas primeiras professoras, a Luiza que foi nossa aluna, monitora e professora, ao Claúdio que sempre nos apoiou na doação de computadores, ao Ed editor do nosso podcast e ao Cidão, nosso contador e amigo desde o ínicio.
A festa também foi o momento de lançar publicamente de forma física a cartilha “Daqui pra frente: o seu guia sobre a universidade”, um material construído a partir da experiência acumulada do Minas Programam ao longo desses 10 anos. O guia reúne informações e estratégias sobre acesso ao ensino superior, permanência na universidade, escolha de cursos, organização da rotina de estudos e preparação para processos seletivos, além de entrevistas com cientistas e profissionais negras contemporâneas. Mais do que um manual, a cartilha sistematiza aprendizados e práticas que sempre estiveram no centro do nosso trabalho: fortalecer a autonomia, a autoestima intelectual e o direito de meninas e mulheres negras e periféricas de sonhar, acessar e permanecer na universidade. Ela é um legado que esperamos que seja útil por muitos anos.
