Apesar de não ser paulista, Ruth de Souza merece espaço nessa parada por ser quem abriu espaço para atores e atrizes negras na dramaturgia brasileira, tanto no teatro como no cinema.

Ruth-de-Souza.-Luiz-Paulo-Lima.011Nascida no Rio de Janeiro em 1921 (fontes divergem entre 1921, 1928 e 1930), Ruth de Souza viveu até os 9 anos de idade com a família em Porto do Marinho, uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Quando seu pai falece, ela e a mãe voltam a morar no Rio de Janeiro, em uma vila de lavadeiras e jardineiras, no bairro de Copacabana. Interessa-se por teatro ainda jovem e toma conhecimento do grupo de atores liderados por Abdias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro.

O Teatro Experimental do Negro tinha como objetivo a valorização do negro no teatro e a criação de uma nova dramaturgia, participando do nascimento do teatro moderno. O projeto recrutava operários, empregadas domésticas, pessoas da periferia, e trabalhava o ator pela cidadania, através da conscientização e alfabetização do elenco. O TEN estimulava a criação de novos textos que pautassem a situação do negro.

Foi assim que Ruth de Souza tornou-se a primeira atriz negra a subir ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro com a peça O Imperador Jones, de Eugênio O’Neill, peça que retrata a situação do negro após a abolição da escravatura. Em 1959, vive outro momento especial no palco, quando protagoniza Oração para uma Negra, de William Faulkner, com Nydia Lícia e Sérgio Cardoso, no Teatro Bela Vista, em São Paulo. Já reconhecida pela crítica, recebe bolsa de estudo da Fundação Rockefeller e passa um ano nos Estados Unidos, estudando na Universidade de Harvard e na Academia Nacional do Teatro.

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Carolina Maria de Jesus e Ruth de Souza na Favela do Canindé. São Paulo, 1961 – foto: Acervo Acervo Ruth de Souza

Ruth de Souza estreia no cinema em 1948 no filme Terra Violenta, baseado no romance Terras do Sem-Fim, de Jorge Amado. Cinco anos depois, atinge um dos pontos mais importantes de sua carreira com a participação em Sinhá Moça. Por seu desempenho no filme, torna-se a primeira atriz brasileira indicada para prêmio internacional: o Leão de Ouro, no Festival de Veneza de 1954.

Depois de atuar em radionovelas, trabalha na Tupi, na Record e depois passa a integrar o elenco da TV Globo. Nela, torna-se a primeira atriz negra a protagonizar uma novela: A Cabana do Pai Tomás.

Em 2015, o livro “Uma Estrela Negra no Teatro Brasileiro: Relações Raciais e de Gênero nas Memórias de Ruth de Souza”, de Julio Claudio da Silva, foi lançado, celebrando o importante papel de Ruth de Souza para o teatro. Silva busca analisar a construção da definição de raça na sociedade brasileira e no trabalho desse teatro que surgiu para denunciar o racismo e abrir espaço para o negro no teatro, sendo Ruth uma de seus principais expoentes.

Ruth fez mais de 40 novelas, 33 filmes e dezenas de peças. Outras peruth_de_souzaças de destaque foram Réquiem para uma negra, de William Faulkner, em 1983; Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, em 1990; Zumbi, de Guarnieri, Augusto Boal e Edu Lobo, em 1993; e O Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, em 1994.

Para mergulhar na história de Ruth de Souza, leia: http://www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/hist%C3%B3ria-e-mem%C3%B3ria/hist%C3%B3ria-e-mem%C3%B3ria/2014/07/17/ruth-de-souza

JESUS, Maria Angela de. Ruth de Souza: a estrela negra. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.

“Uma Estrela Negra no Teatro Brasileiro: Relações Raciais e de Gênero nas Memórias de Ruth de Souza”, de Julio Claudio da Silva.