Esse ponto da caminhada espera colocar em debate as diferentes ocupações e resistências ocorridas na cidade de São Paulo em fins do século XIX e início do século XX por parte de um setor social que não é lembrado frequentemente quando tratamos deste recorte temporal e espacial: as mulheres negras trabalhadoras.
Com o fim da escravidão e os incentivos que levaram ao aumento da imigração europeia para o Brasil, os negros passaram a ser excluídos enquanto trabalhadores. O imaginário comum trazia a ideia de que a população negra naturalmente deveria ocupar esse espaço de marginalidade. Estereótipos que se mantém até hoje – como por exemplo, a falta de consciência e a indolência – eram perpetuados. No entanto, cabe questionar: será que essas impressões refletem mesmo a experiência das pessoas negras da época?
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Vamos considerar o exemplo das mulheres negras. Desde o período colonial, elas – sejam escravizadas, libertas ou livres – ocuparam postos de trabalho doméstico e também atividades externas. Elas realizavam pequenos serviços pagos ou não. A esses aspectos, somam-se o destaque dessas mulheres no comércio ambulante na cidade, o que chamou atenção das autoridades locais além do comércio irregular, mas também por seu fluxo e redes de solidariedade. Assim, por serem possíveis elos e meios de contato com maridos ou filhos escravos, eventualmente fugidos, elas recebiam fortes repressões municipais, que atingiam todo comércio ambulante, fosse a vendedora escrava ou forra.
A partir do pós-abolição o trabalho dessas mulheres, já libertas e livres, também tornou-se alvo das discriminações e regulações do poder público. Dentre elas, as Lavadeiras da Várzea do Carmo, então região do “sul da Sé” por onde passava o rio Tamanduateí, onde hoje é o Parque Dom Pedro. O próprio processo de reurbanização da Várzea do Carmo, em nome da segurança e da saúde pública, além de sua face arquitetônica, interferiu no cotidiano dessas mulheres. Essas lavadeiras, cujo trabalho era bem requisitado na época, não estavam necessariamente subordinadas ao controle sistemático das autoridades municipais, o que certamente representava um incômodo aos grupos à frente do poder local.
Alguns memorialistas descrevem essas mulheres como “prejudiciais à imagem da cidade” já que “em certas ocasiões fugiam ao necessário controle desejado”. As lavadeiras eram vistas como “briguentas”, e tinham um “comportamento fora dos padrões morais exigidos em relação às mulheres na época”. Ou seja, foi feito um esforço para construir uma narrativa em que essas mulheres negras, trabalhadoras, fossem vistas sob aspectos negativos.
Usamos como fonte esse trabalho incrível: http://lemad.fflch.usp.br/node/7403